MPRS denuncia policial penal e outras três pessoas por esquema envolvendo acervo de ouro avaliado em cerca de R$ 8 milhões
O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) apresentou denúncia criminal contra um policial penal e outras três pessoas por envolvimento em um esquema que começou com o furto de relógios de luxo, joias e moedas de ouro e se desdobrou em uma série de operações de lavagem de dinheiro para ocultar a origem dos bens e valores obtidos.
De acordo com a denúncia oferecida pela Promotoria de Justiça Especializada Criminal de Porto Alegre, na sexta-feira, o principal investigado, um policial penal de 31 anos, se aproveitou da relação de confiança que mantinha com familiares idosos para subtrair os bens de uma residência, localizada em Porto Alegre. As vítimas são o avô e os tios do policial.
A denúncia aponta que os furtos aconteceram no segundo semestre de 2024. O patrimônio furtado da casa dos idosos inclui cerca 17,5 quilos de ouro, avaliados à época em R$ 7,8 milhões e seis relógios de luxo, estimados em aproximadamente R$ 1 milhão. O valor total dos bens alcançava R$ 8,87 milhões.
Segundo o promotor Flávio Duarte, responsável pela investigação, o policial penal conhecia o local onde o acervo era armazenado e tinha acesso facilitado ao imóvel. “Para cometer os crimes, o denunciado usou da relação de confiança que mantinha com as vítimas, todas elas familiares próximas e diretas, e das facilidades concretas que eram proporcionadas em razão dessa condição”, afirma.
Parte do acervo de ouro vinha sendo acumulada por uma das vítimas desde a década de 1950 e precisou ser transportada em 2023, quando esse idoso mudou de residência. O policial penal auxiliou pessoalmente no desenterramento, pesagem, transporte e armazenamento dos materiais. “A partir daí, o denunciado passou a conhecer com mais exatidão a natureza e a dimensão dos bens, bem como o local em que permaneciam guardados, juntamente com outros itens em ouro, pertencentes aos moradores da casa. Tudo era guardado em local secreto, essa informação era restrita a reduzido número de pessoas da família”, destaca o promotor.
Em 2024, o denunciado passou a dispor das chaves da casa, do controle do portão eletrônico e do conhecimento da rotina da residência. Além disso, exercia autoridade no local perante funcionários. “Ele tinha acesso privilegiado ao imóvel e podia ingressar e circular natural e legitimamente, sem despertar suspeitas. Ele se valeu desse acesso e do conhecimento previamente adquirido acerca do esconderijo e das características dos objetos nele depositados. Foi assim que subtraiu os bens armazenados no local sem necessidade de arrombamento ou ingresso forçado”.
Além disso, para retardar a apuração e descoberta dos crimes, o policial trocou as moedas de ouro por moedas falsas e quatro relógios autênticos por réplicas. Assim, deu uma aparência de integridade do acervo e permitiu que o furto permanecesse oculto por período mais prolongado.
A denúncia também aponta que um comerciante especializado no mercado de moedas e metais preciosos e um leiloeiro oficial receberam, armazenaram e comercializaram os objetos de origem ilícita, utilizando sua atuação profissional para facilitar a colocação dos bens no mercado. Segundo o Ministério Público, os dois obtiveram vantagem econômica com as negociações.
Ainda de acordo com a investigação, após a venda dos objetos, os valores passaram por diversas operações financeiras destinadas a ocultar a origem. O MPRS afirma que os recursos foram movimentados por contas de terceiros, usados em pagamentos fracionados e direcionados para compra de bens e pagamento de despesas pessoais, incluindo veículos, uma moto aquática, equipamentos eletrônicos, viagens, aluguel de imóvel e procedimentos estéticos. Pelo menos R$ 1,6 milhão teria sido submetido a operações de lavagem de dinheiro.
A acusação envolve também a companheira do policial penal, uma mulher de 37 anos. De acordo com a denúncia, ela teria participado da etapa de lavagem de recursos, recebendo valores em conta bancária e sendo beneficiária de despesas pagas com dinheiro proveniente das operações investigadas.
O promotor Flávio Duarte afirma que os quatro denunciados atuaram de forma estável e coordenada durante aproximadamente dois anos. Segundo a acusação, o grupo tinha divisão de tarefas, cabendo ao autor do furto fornecer os bens e indicar o destino dos recursos. Já os demais participantes, atuando como operadores financeiros, eram responsáveis pela comercialização dos objetos, pela circulação do dinheiro e pela realização de pagamentos e aquisições em benefício dos integrantes do esquema.
O Ministério Público denunciou o policial penal por dois crimes de furto qualificado, lavagem de dinheiro e associação criminosa. A companheira dele foi denunciada por lavagem de dinheiro e associação criminosa. O comerciante, de 65 anos, e o leiloeiro, de 42 anos, vão responder por receptação qualificada, lavagem de dinheiro e associação criminosa. Na ação penal, o MPRS também requer a fixação de valor mínimo para reparação dos danos causados às vítimas.
No dia 14 de setembro de 2026, o Ministério Público do Rio Grande do Sul, por meio da Promotoria de Justiça Especializada Criminal de Porto Alegre, com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), cumpriu a prisão preventiva do policial penal que atuava junto ao MPRS, em regime de cedência. Ele segue preso.
