Palestra de Lili de Grammont e apresentação do Projeto Pedros e Marias marcam abertura de evento sobre feminicídios no MPRS
A palestra da coreógrafa, psicóloga e ativista contra a violência doméstica Lili de Grammont abriu, no final da tarde desta quinta-feira, 26 de março, no Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), o seminário “Ampliando o olhar do Sistema de Justiça: feminicídio, subnotificação e respostas institucionais”. Lili tinha apenas dois anos quando sua mãe, a cantora Eliane de Grammont, foi assassinada a tiros pelo pai, o também cantor Lindomar Castilho. Sua apresentação, denominada “Órfã do Feminicídio: transformando a dor em força”, nasceu quando ela percebeu o impacto de sua história na vida de outras pessoas.
“Eu tive um relacionamento intenso com meu pai, que foi o autor da violência contra minha mãe, e isso gera uma curiosidade de alguns homens, que são fãs do meu pai até hoje, ouvem as músicas dele. Então eu entendi que era uma oportunidade de abrir diálogo com esses homens, falar sobre masculinidades, sobre como as pequenas ações do dia a dia revelam-se em uma sociedade extremamente machista na sua base, misógina. É uma oportunidade, através de um caso que vai sensibilizando as pessoas, porque elas lembram do caso. Uma curiosidade que é bem-vinda porque se transforma em uma oportunidade para abrir a consciência”, contou Lili, que fez um emocionante relato da sua história e falou sobre as diversas faces do feminicídio, especialmente aquela que envolve as crianças que ficam órfãs nesses crimes e estiveram tão invisibilizados ao longo da história.
“Crescendo, eu entendi que as mortes são naturais. Mas os feminicídios são evitáveis”, falou, sobre o trabalho de ativismo no combate a esse tipo de crime, que inclui espetáculos de dança e um livro que está para ser lançado em breve: “ser vítima indireta de um feminicídio deixa marcas e sequelas irreparáveis e uma delas é preferir não sentir, não entrar em contato. A cura do trauma começa quando você olha para dentro, diz primeiro para si e depois para o outro, o que sente.”
Ao final de sua fala, Lili deixou uma mensagem de esperança. "Eu acredito no ser humano, na alegria e na paz. Ser feliz é olhar para dentro e aceitar nossa finitude, é fazer de cada dia um pequeno milagre.”
ABERTURA
Na abertura do evento, a coordenadora do Centro de Apoio Operacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher, Ivana Battaglin, lembrou que somente nos primeiros meses deste ano, 24 mulheres foram assassinadas no Rio Grande do Sul. “Se há algo que estes dois dias podem nos oferecer, não é apenas mais conhecimento, é deslocamento. É a possibilidade de ampliarmos o olhar, de recusarmos respostas automáticas, de assumirmos, cada um no seu lugar, a parte que nos cabe. Talvez não possamos prometer que o mundo, ao final deste encontro, será outro. Mas podemos e devemos sair daqui menos dispostos a aceitar o mundo tal como ele tem sido. Porque, se nomeamos o feminicídio, foi para não mais tolerá-lo. E se sabemos reconhecê-lo, já não temos o direito de ignorá-lo”, destacou a promotora de Justiça.
Falando em nome do procurador-geral de Justiça, Alexandre Saltz, a subprocuradora-geral de Justiça para Assuntos Institucionais, Alessandra Moura Bastian da Cunha, agradeceu a presença da plateia qualificada, reunindo diversas instituições do Sistema de Justiça e a sociedade civil “reunidos para não apenas lançar e ampliar o olhar sobre o feminicídio e as suas severas consequências, mas para juntos acharmos respostas, buscarmos caminhos que possam reduzir esse número. Hoje são 24”.
PROJETO PEDROS E MARIAS
Após a palestra de abertura, foram apresentados os primeiros números do Projeto Pedros e Marias , voltado ao acolhimento e à atenção de vítimas indiretas do feminicídio, como filhos e pais de mulheres assassinadas.
A subprocuradora-geral Alessandra Moura Bastian da Cunha, destacou que, com base nas informações disponíveis sobre os 24 feminicídios registrados até o momento neste ano no Estado, o MPRS já identificou 47 órfãos, sendo 15 maiores de 18 anos de idade e 27 com menos de 18 anos. Há, ainda, cinco órfãos vinculados a um caso específico, cuja vítima era de outro estado, onde residem os filhos, não sendo possível, até o momento, determinar se são maiores ou menores de idade.
“O Projeto Pedros e Marias reafirma que cada nome representa uma vida profundamente transformada pela violência. O compromisso do MPRS é garantir que essas histórias sejam acolhidas com dignidade, proteção e responsabilidade, por meio de uma rede de cuidado integral e sensível. Olhando para esses casos, a gente percebe aquilo que é óbvio: o feminicídio é um crime de muitas vítimas. Nós não temos apenas uma mulher calada, a sua vida interrompida. Nós temos filhos, nós temos pais, histórias de vida que são modificadas brutalmente por esse ato de extrema violência. E são essas histórias que nós precisamos contar”, ressaltou Alessandra.
SEMINÁRIO NESTA SEXTA
Promovido pelo MPRS em parceria com o Tribunal de Justiça, Polícia Civil e Programa RS Seguro, o seminário, que é gratuito, continua nesta sexta-feira, 27 de março, das 9h às 17h, no Auditório Mondercil Paulo de Moraes, na sede do MPRS, em Porto Alegre (Avenida Aureliano de Figueiredo Pinto, 80, 3º andar).
O objetivo do encontro é ampliar a compreensão e qualificar a atuação do Sistema de Justiça e da segurança pública no reconhecimento, investigação, persecução penal e julgamento dos crimes e tentativas de feminicídio, contribuindo para a redução da subnotificação e para o fortalecimento das respostas institucionais. Iniciativa dos Centros de Apoio Operacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher (CAOEVCM), Criminal e de Acolhimento às Vítimas (CAOCRIM) e do Júri (CAOJÚRI), o evento é realizado pelo Centro de Estudos e Aperfeiçoamento Funcional do MPRS (CEAF). Além de qualificar a investigação criminal com perspectiva de gênero, pretende, ainda, discutir estratégias de prevenção, gestão de risco e proteção das vítimas e fortalecer a atuação integrada entre MPRS, TJRS e Polícia Civil.
Clique aqui para acessar a programação completa, que contempla diferentes perspectivas sobre a violência de gênero e o feminicídio, reunindo especialistas do Direito, da Segurança Pública, da Psicologia e do Sistema de Justiça.
