Praça da Matriz

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Endereço:
Palácio do Ministério Público do RS
Praça Marechal Deodoro, 110, Centro Histórico
90010-300 Porto Alegre - RS - Brasil

Telefones:
(51) 3295-8650

Cronologia da Praça da Matriz

No dia 24 de abril de 1763, cerca de um ano após a tomada da Colônia de Sacramento, um exército espanhol invadia o Rio Grande do Sul. Caía a então Capital, Rio Grande, sob o domínio inimigo. A permanência dos espanhóis em território português fez com que o governador Ignácio Eloy de Madureira efetuasse a transferência da sede do governo para a cidade de Viamão.

Não tardaria muito para que os governantes entendessem ser a pequena vila de Porto de São Francisco dos Casais mais apropriada para o centro político e administrativo. A localidade era entreposto obrigatório para quem pretendesse ir para o Norte do Continente de São Pedro. Além disso, fixada no alto de uma colina, dela era possível controlar todo o fluxo de embarcações pelo Guaíba. Resolve assim o governador José Marcellino de Figueiredo transferir a Capital. Em 18 de janeiro de 1773, realizou-se a substituição do orago de São Francisco para o de Nossa Senhora de Madre de Deus, sendo na mesma ocasião elevada a localidade à categoria de paróquia, recebendo o nome de Porto Alegre. A transferência definitiva deu-se em 24 de julho de 1773. Uma missa festiva foi celebrada nas obras da Igreja da Matriz, cuja construção iniciara um ano antes, no mesmo local onde, em 1753, um certo Frei Faustino instalara um cemitério, que serviria de morada última aos ainda recém chegados camponeses dos Açores.

Nos anos de 1770, a Praça da Matriz era conhecida como Alto da Praia. Poucas eram as edificações que margeavam a área. Ao longo da Rua Duque de Caxias, então chamada Rua da Igreja, descortinavam-se luzidios trigais, produto do labor daqueles açorianos; ondeados pelos ventos do Sul, uniam-se às águas do Guaíba no abraço ao acanhado povoado colonial. Em 1780 concluem-se as obras da Igreja. Em 1789 ganhava ela como ilustre vizinho o antigo Palácio da Presidência. Construção com dois pisos e duas carreiras de amplas janelas voltadas para a Praça, dominava o casario de telhados caiados de branco, sob a sombra austera dos torreões da Igreja. A sua frente, projetava-se um esguio mastro que empunhava o pendão do Reino de Portugal. Um ano depois, terminam as obras da Casa da Provedoria da Real Fazenda, ao lado do Palácio, que mais tarde passou a abrigar a Assembléia Legislativa.

O século XIX trouxe a Independência do Brasil e também novos hóspedes na Praça da Matriz. As bandeiras do País e da Província passaram a dominar os mastros da área. Em 1818 foi concluído o aristocrático Casarão dos Câmara, morada do primeiro Presidente da Província, o Visconde de São Leopoldo, também patrono da imigração alemã, cujas primeiras levas de colonizadores chegaram em 1824.

Embora a Praça da Matriz reunisse as construções mais nobres da acanhada cidade à beira do rio, o logradouro não passava de um terreno despido, em declive acentuado, sulcado pela erosão, sem arborização, iluminação ou calçamento. Junto às fachadas dos prédios públicos, bruxuleavam quando muito alguns candeeiros alimentados com óleo de peixe ou de baleia. A primeira calçada para pedestres surgiu em 1846. Partia da Rua do Ouvidor (General Câmara) e subia perpendicularmente em direção ao Palácio, no topo. Dois anos mais tarde, o lado leste ganhou igual passarela de pedra, conectando as antigas Rua do Cemitério (Espírito Santo) até a Rua da Ponte (Riachuelo).

A vida cultural da Província convergiu para o centro cívico em 1858, com a inauguração do Theatro São Pedro. Mas o local apenas começou a ser urbanizado em 1865, quando recebeu o nome de Praça de Dom Pedro II, em homenagem à visita do monarca à Porto Alegre, que para aqui viera comandar a defesa do Rio Grande do Sul contra a invasão paraguaia. Com a início dos serviços da Hidráulica, em 1866, cujas instalações localizavam-se na esquina da Praça com a Rua Duque de Caxias, no lado oeste, instalou-se uma fonte com cinco estátuas em mármore de carrara, alegorias dos rios que formam o delta do Guaíba. Este foi o primeiro monumento público da cidade. Das cinco peças originais, quatro encontram-se descaracterizadas na atual Praça do Rosário e uma, a que representava o Rio Guaíba, no alto, foi perdida...

Em 1874, com a inauguração do gasômetro, a Praça da Matriz recebeu postes de iluminação pública a gás. Formavam um círculo em torno do chafariz central. Em 1871, concluiu-se a construção do “Forte Apache”, na esquina da atual Jerônimo Coelho, instalando-se ali a Estação Telegráfica, que fazia a conexão da Província com a Corte do Rio de Janeiro. Ao lado do Theatro São Pedro, foi erigido um edifício gêmeo, destinado inicialmente a abrigar a Câmara Municipal e, mais tarde, o Tribunal de Justiça. Do outro lado, o antigo prédio da Bailante, em estilo neo-clássico, onde hoje eleva-se o edifício da Assembléia Legislativa, promovia festas e congraçamentos sociais. Do lado leste, na esquina com a Rua Duque de Caxias, ficava o prédio da Intendência Municipal, que em 1901 deslocou-se para o Paço Municipal com a inauguração da sede atual. Foi também nos anos de 1870 que começaram a circular pela Praça os bondes puxados por jumentos. Chegavam esbaforidos ao topo do promontório, após vencer as ladeiras íngremes do entorno.

Ajardinamento, arborização e calçamento apenas vieram com a década de 1880, sendo ultimados no ano de 1883. Em 1885, a Praça ganhou um novo monumento em mármore: homenageando o Conde de Porto Alegre, foi inaugurado pela Princesa Isabel. Por esta época, ganhou ainda um cercamento de ferro. Em 1887 entrou em operação a usina elétrica da cidade. O Palácio do Governo foi o primeiro prédio público a usufruir da novidade. Na mesma época, a Companhia Telefônica iniciou suas atividades, inaugurando uma agência com 72 aparelhos na esquina das ruas Riachuelo e General Câmara, onde hoje encontra-se a Biblioteca Pública..
Com a Proclamação da República, a Praça passou a chamar-se Marechal Deodoro, denominação oficial que ainda hoje prevalece. Em 1896, foi lançada a pedra fundamental do novo Palácio do Governo, no mesmo lugar do antigo. A sede do poder transferiu-se então para o “Forte Apache”, onde ficou até 1921, quando a ocupação do Palácio Piratini finalmente foi desencadeada.

Um amplo projeto de urbanização começou a ser pensado para a área a partir de 1906. Previa-se o alargamento da Praça sobre o terreno ocupado pela Bailante, o que daria mais equilíbrio ao conjunto, pois o novo Palácio ficaria no centro da Praça, dominando a área cívica. Dois boulevares paralelos desceriam em direção ao Rio, desdobrando-se um na atual Rua General Câmara e passando o outro entre o Arquivo Público e o Solar dos Câmara. Conforme o projeto original, ambos iriam se encontrar no início da Praça da Alfândega, numa rótula que teria ao centro o monumento a Júlio de Castilhos. O trânsito subiria por um lado e desceria pelo outro, sendo desviado ao largo da Praça, sem passar de fronte ao Palácio Piratini. A Praça, seria o jardim frontal do Palácio. Ao fundo, jardins escalonados com acesso público conectariam o Palácio à Rua Fernando Machado.

Desta concepção urbanística, restou apenas um prédio residencial feito construir com alinhamento enviesado na Riachuelo, por causa do traçado imaginário da avenida, e o monumento a Júlio de Castilhos, inaugurado em janeiro de 1913 na Praça da Matriz, - e não na Praça da Alfândega. O monumento, em bronze, foi concebido por Décio Villares e fundido em oficinas na França. É dominado por uma alegoria feminina da República. Nas laterais, representa três fases da vida de Júlio de Castilhos: a juventude, ou fase da propaganda republicana; a maturidade, ou fase de institucionalização do regime; e a velhice, quando o chamado Patriarca converte-se no profeta dos republicanos gaúchos. Um dragão na base do monumento representa a ameaça da restauração monárquica e a oposição ao regime ditatorial de Castilhos e Borges de Medeiros. Anualmente, sempre no dia da morte de Castilhos, 24 de outubro, eram celebradas exéquias cívicas junto ao monumento. A prática foi abolida com a Revolução de 3 de outubro de 1930.

Em 1921, embora inconcluso, o Palácio Piratini começou a ter ocupação. No mesmo ano, foi lançada a pedra fundamental da nova Catedral Metropolitana. A antiga Catedral foi demolida em 1929, junto com a pequena Capela do Divino Espírito Santo. Com isso, a Praça foi aos poucos deixando de sediar as festas populares do Divino, que reuniam o povo com procissões, música, dança e feiras. O novo templo foi plenamente concluído apenas em 1986, ao passo que as obras do Palácio foram definitivamente encerradas somente em 1971.

O prédio da Biblioteca Pública foi inaugurado em 1922. Os bustos na fachada representam personagens do calendário positivista, ideologia professada pelo regime castilhista e borgista.


Em 1927, o Intendente Otávio Rocha construiu no local da antiga Bailante e da Hidráulica o Auditório Araújo Vianna. Concertos e apresentações de banda eram realizados na concha acústica, em frente a qual distribuíam-se os 400 lugares da platéia ao ar livre, emoldurados por caramanchões cobertos por trepadeiras floridas. O Auditório foi demolido em 1955, quando iniciou-se a construção do Palácio Farroupilha, sede da Assembléia Legislativa, que foi inaugurada em 1967. Como contrapartida pela cedência da área, a Assembléia fez construir um novo auditório no Parque da Redenção.

Na noite de 19 de novembro de 1949, um misterioso incêndio destruiu o Tribunal de Justiça, ao lado do Theatro São Pedro. No lugar dos escombros foi então erigido o atual Palácio da Justiça. Em frente ao edifício em estilo moderno foi instalada uma herma que homenageia o Dr. Oswaldo Vergara.
Mas nem só de prédios públicos anima-se a vida no entorno da Praça. O lado leste manteve algumas elegantes residências antigas, construídas na virada do século XIX para o XX, como o Solar dos Palmeira, onde atualmente funciona um restaurante escola do SESC. Além disso, o final dos anos 1960 e a década de 1970 testemunharam a chegada de alguns modernos espigões, destinados tanto para ocupação residencial quanto comercial.

A Praça da Matriz se consolidou como o centro cívico, cultural e religioso dos gaúchos. Foi por isso palco de inúmeros acontecimentos de relevância histórica, como o pronunciamento militar dos Menna Barreto em 19 de junho de 1823, em solidariedade a Dom Pedro I; a recepção ao Imperador Dom Pedro II, em 1865; a aclamação da República, em 1889; a deposição de Júlio de Castilhos, em 11 de novembro de 1891 e a sua posterior recondução ao governo em 17 de junho de 1892; as manifestações populares dos grevistas de 1917, que paralisaram completamente a cidade por dias; as célebres sessões na Assembléia Legislativa que reconheceram a reeleição de Borges em 1922, estopim da Revolução de 1923; a imemorável Constituinte Estadual de 1947; a Campanha da Legalidade, em 1961; também nos anos 1960, a catedral recepcionou Dom Vicente Scherer, primeiro gaúcho sagrado Cardeal em Roma; em 1989, o Palácio Farroupilha efervesceu com as sessões da Constituinte cidadã. A Praça da Matriz tem sido há décadas o destino de passeatas e manifestações populares, cuja concentração final se dá de fronte aos palácios do Governo, da Assembléia ou da Justiça. Da mesma forma, para lá tem convergido há quase um século e meio a vida artística, cultural e religiosa de Porto Alegre.

Bibliografia:

AXT, Gunter & BURD, Armando. O Casarão Resiste. Jornal Correio do Povo, Porto Alegre, 27 de janeiro de 1998, 16 páginas.
FÉLIX, Loiva Otero e Grijó, Luís Alberto. Histórias de Vida: Entrevistas e Depoimentos de magistrados gaúchos. Porto Alegre, Editora do Tribyunal de Justiça, 1999
FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: Guia Histórico. Porto Alegre: Editora da Universidade, 1988
SPALDING, Walter. Pequena História de Porto Alegre. Porto Alegre, Ed. Sulina, 1967.