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Drogas na vida do adolescente: fatores de risco e proteção, "estamos ligados"?


Drogas na vida do adolescente:fatores de risco e proteção, "estamos ligados"1?



Simone Mariano da Rocha


O crescente aumento do consumo de drogas pelos adolescentes é comprovação cotidiana dos estudos científicos. Segundo Paulo Knapp 2 , embora o homem adulto faça uso de drogas desde seus primórdios, o abuso de drogas por adolescentes foi reconhecido como um problema sério somente no século XX , ao final dos anos 50, com os primeiros relatos do uso de solventes. Nos anos 60, com os movimentos jovens ganhando força, as substâncias químicas, principalmente a maconha e os alucinógenos, começaram a fazer parte de seu mundo e, desde então, as drogas fazem parte do cenário internacional.
Com vistas a compreender essa realidade, pesquisadores vêm realizando estudos que evidenciem as razões pelas quais ocorre essa experimentação e o uso regular das substâncias que causam dependência, principalmente nesse período da vida.

A palavra adolescência deriva da forma latina adolescentia e, segundo o Novo Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa, refere-se ao período da vida humana que sucede à infância, começa com a puberdade, e se caracteriza por uma série de mudanças corporais e psicológicas. O adolescer se conjuga numa posição fronteiriça entre a infância e a vida adulta. Mais do que revelar um suposto desenvolvimento individual, refere-se a um momento psíquico de transição em que a definição de limites entre os lugares se torna questão norteadora para o sujeito.

José Outeiral 3 reconhece que os adolescentes, por viverem um período de intensas transformações físicas e psíquicas, constituem uma população de risco em relação ao uso de drogas.

Segundo Freitas 4 , a produção científica sobre a adolescência e todas as suas implicações é vasta e pontuada por uma importante diversidade de abordagens. No entanto, menciona que existe uma tendência popularizada a se associar essa fase do desenvolvimento humano a crises, problemas, tumultos, estresse e sofrimento, bem como considerar tais fatores inerentes a esse período de amadurecimento tanto físico como psicológico. Segundo essa concepção, para que o desenvolvimento ocorresse de maneira adequada, o jovem precisaria elaborar os chamados 'lutos da adolescência', ou seja, aceitar as perdas como requisitos necessários para viver positivamente a fase da adolescência. Revela , ainda, que estudos mais recentes apresentam uma outra e nova forma de ver a questão, considerando a adolescência como um tempo de transformação que não é, necessariamente, de tumulto ou transtorno, embora possa trazer problemas para alguns. Assim, nem toda a adolescência é problemática, e nem todo adolescente recorre, necessariamente, à droga para compensar dificuldades. Segundo afirma a especialista, abordado e interpretado de uma ou outra forma, o fato é que existe uma associação relevante entre a adolescência e o uso de drogas.

É na adolescência , segundo chamamento do Colóquio de psicanálise 5 ocorrido, no Rio Grande do Sul, no segundo semestre de 2002, que o jovem se vê chamado a ocupar uma nova posição, precisando para isso realizar uma passagem da família para o laço social . É o tempo de saída de casa para o ingresso no terreno das relações amorosas e das identidades coletivas advindas dos campos sexual, social, profissional, religioso, político, etc. É fora de casa que o sujeito vai buscar o encontro do parceiro amoroso e sexual, assim como o reconhecimento de seus pares. A adolescência, assim, é um interpretante das fronteiras entre o dentro e o fora , entre o subjetivo e o social, entre o público e o privado e, conseqüentemente, pode ser reveladora das patologias vigentes nesses espaços. Como momento de passagem, portanto, a adolescência comporta uma construção de fronteiras e, ao mesmo tempo, uma dissolução.

Também em abordagem sobre a adolescência, Bucher 6 menciona entender que esse processo de transição inclui conflitos de ambivalência que raramente se revelam de modo direto, mas que devem ser responsabilizados pelas incongruências que constam da conduta do adolescente. Assim, a violência, a formação de grupos e gangues, o uso de drogas podem se revelar em fundamentos de pedidos individuais que vão buscar eco no âmbito da sociedade.

Até o momento não se conhece nem um fator que, isoladamente, seja o determinante ou causador do uso, abuso ou dependência de drogas. Alguns fatores que contribuem para o uso de drogas pelos adolescentes foram identificados por pesquisadores da àrea. Como salientam Herbet 7 et alli, dentre eles, foram detectados a influência do grupo de iguais, a aprovação social, a ansiedade, a depressão, a disfunção familiar e o comportamento anterior de assumir riscos. Confirma Freitas 8 que as respostas hoje disponíveis resultam de estudos epidemiológicos, ou seja, da relação de diversos fatores de risco e de proteção associados ao uso de drogas. Assevera, contudo, que os fatores de risco ou de proteção não são determinantes; apenas aumentam ou diminuem, em diferente intensidade, a probabilidade de o evento ocorrer. Com relação especificadamente aos fatores de risco e de proteção associados ao uso de drogas por adolescentes, existe um significativo número de estudos que os identifica e aponta como costumam interagir e se manifestar. É de salientar a afirmação de Freitas 9 de que os achados da literatura científica não têm causado surpresa àqueles que sobre ela se debruçam, pois se vê evidenciado o que é conhecido como "bom senso", podendo-se inferir que existe um entendimento, um saber, um conhecimento de que determinadas circunstâncias, se presentes ou ausentes na vida de uma criança ou adolescente, podem aumentar ou diminuir a probabilidade de experimentação ou uso sistemático de drogas. Pontua, ademais, que, através da revisão da literatura científica sobre os fatores associados ao uso de drogas na adolescência, pode-se classificá-los como relacionados ao indivíduo, à família, à escola, aos pares e à comunidade 10 .

Essa visão dos especialistas é corroborada por inúmeros outros profissionais ao apontarem que os problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas situam-se na interação do indivíduo com seu meio.

Bordin 11 confirma que o comportamento anti-social da criança e do adolescente tem sido atribuído a fatores individuais, familiares e sociais, destacando que o transtorno de conduta( caracterizado pelo comportamento anti-social persistente, com violação de normas sociais ou direitos individuais) está freqüentemente associado a baixo rendimento escolar e a problemas de relacionamento com colegas, trazendo limitações acadêmicas e sociais ao indivíduo. Refere, ademais, que são freqüentes os comportamentos de risco envolvendo o uso de drogas e o relaciona também como fator associado ao comportamento anti-social, reconhecendo que esse envolvimento com drogas e gangues pode iniciar o jovem na criminalidade.

Existe, portanto, uma interação dinâmica entre as variáveis individuais, ambientais e a substância química. As drogas estão presentes em qualquer época da vida de uma pessoa, no entanto a adolescência, período marcado por mudanças e curiosidades sobre um mundo que existe além da família, representa um momento especial no qual a droga exerce um forte atrativo.

Sabe-se que não há como acabar com a droga em si, e ela não é a única causa de violência da sociedade, mas o consumo abusivo de substâncias psicoativas entre os adolescentes e a sua relação com o criminalidade é tema que vem preocupando há muito os profissionais que atuam na área da infância e da juventude, e especialmente a nós que atuamos no Sistema de Justiça da Infância e da Juventude e temos como dever legal a observância do princípio da proteção integral e do respeito à condição peculiar de criança e adolescente como pessoa em desenvolvimento.

Será que estamos ligados para, embasados nas várias abordagens técnico-científicas, refletir que a droga pode funcionar como uma solução para a angústia, como um chamado e também como uma denúncia de algo que não funciona, seja na família, ou no sistema social mais amplo? Será que estamos ligados para perceber que é preciso compreender o universo psicossocial no qual está implicado este adolescente para que as alternativas oferecidas encontrem ressonância na sua história de vida? Será que estamos ligados para perceber que os órgãos governamentais, na maioria das vezes, têm atuado de forma isolada e dificilmente conseguem traduzir suas propostas em ações concretas? Será que estamos ligados para perceber a falta de integração das ações e a ausência de uma política pública integrada?

O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê, através da abordagem socioeducativa, a intervenção não meramente punitiva do Sistema de Justiça, mas propõe um modelo de intervenção sistêmica, à medida que preconiza apreciar a amplitude do problema e possibilita ao adolescente refletir sobre seus atos e buscar novas formas de se relacionar no mundo.

É urgente e necessário buscar estabelecer parâmetros que possibilitem uma intervenção integrada, mais eficiente e eficaz do Poder Público nas àreas da prevenção, repressão, recuperação e reinserção da grande parcela da juventude brasileira flagelada pelas drogas.

Em um mundo palco de tão rápidas e profundas mudanças, sabe-se que nem sempre ter consciência de uma dificuldade ou problema significa saber resolvê-lo. Outras vezes, ainda, sabe-se o que é que tem de ser feito, mas não se sabe como fazê-lo.

Ainda que seja prática incipiente, projetos e programas de atenção psicossocial aos usuários de drogas e seus familiares têm revelado satisfatoriamente que quando a instituição judiciária lida com o usuário de drogas como um sujeito que precisa de ajuda e não apenas como um infrator, isso torna possível a realização de um trabalho em nível psicossocial.

É preciso encontrar novas formas de tratar a questão das drogas na vida do adolescente. A droga, como bem mencionou Noto 12 deixou de ser apenas um caso de polícia ou uma prática de "grupos marginais" para se tornar um problema da sociedade moderna.

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1Texto extraído da monografia intitulada "O uso de drogas pelos adolescentes autores de ato infracional na cidade de Porto Alegre: uma questão só de polícia?", apresentada ao Curso de Pós-Graduação em Direito Comunitário:Infância e Juventude, da ESMP/RS, por Simone Mariano da Rocha.

2 Knapp,Paulo.Drogas:classificação,utilização,efeitos e abstinência, in Outeiral,J.et allii. Clínica psicanalítica de crianças e adolescentes. Editora Revinter, Rio de janeiro,1998.

3 Outeiral, José. Alguns dados estatísticos, in Drogas: uma conversa difícil, necessária e urgente. Coleção Sintonia Jovem. São Leopoldo. Editora Sinodal,1999.

4 FREITAS, Carmen Co. As drogas na adolescência : risco e proteção. In: SEIDL, Eliane Maria Fleury (org.). Prevenção ao uso indevido de drogas: diga sim à vida. Brasília, CEAD/UnB;SENAD/SGI/PR, 1999. vol.1 pag.48-56

5 Colóquio Adolescência e Construção de Fronteiras. Porto Alegre, 15-17 de outubro de 2002, UFRGS. Folder

6 BUCHER, R. Prevenção ao uso de drogas, vol I.Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1989.

7 Herbert B.Frederick , Farley Gordon.F. Abuso de Drogas por Adolescentes, pág.398, Segredos em Psiquiatria, de Jacobson James.L. e Jacobson Alan M. ed.Artes Médicas,1997, Porto Alegre.

8 Idem Ibidem nº 5

9 Idem Ibidem nº 5

10 tabela quadro fatores de risco e de proteção associados ao Uso de Drogas na Adolescência, Freitas, Carmem Co. Projeto RS sem Drogas-Apostila.Porto Alegre,2001, pg.32.

11 Bordin, I.A.S. & Offord, D.R.,in Transtorno da conduta e comportamento anti-social.Rev.Bras.Psiquiatria.200;22(supl.II):12-5.

12 O consumo de drogas psicotrópicas na sociedade brasileira, Ana Regina Noto, José Carlos F.Galduróz e Solange Nappo, in Prevenção ao uso indevido de Drogas:diga SIM à vida/Eliane Maria Fleury Seidl(organizadora).Brasília:CEAD/UNB; SENAD/SGI/PR,1999.Vol.I.




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