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Lei Estadual nº 9.716, de 07 de agosto de 1992

Dispõe sobre a reforma psiquiátrica no Rio Grande do Sul, determina a substituição progressiva dos leitos nos hospitais psiquiátricos por rede de atenção integral em saúde mental, determina regras de proteção aos que padecem de sofrimento psíquico, especialmente quanto às internações psiquiátricas compulsórias


LEI Nº 9.716 DE 07 DE AGOSTO DE 1992.

Dispõe sobre a reforma psiquiátrica no Rio Grande do Sul, determina a
substituição progressiva dos leitos nos hospitais psiquiátricos por rede de
atenção integral em saúde mental, determina regras de proteção aos que padecem
de sofrimento psíquico, especialmente quanto às internações psiquiátricas
compulsórias, e dá outras providências.

O GOVERNADOR DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL.
Faço saber, em cumprimento ao disposto no artigo 82, item IV da Constituição do
Estado, que a Assembléia Legislativa aprovou e eu sanciono e promulgo a Lei
seguinte:

DA REFORMA PSIQUIÁTRICA

Art. 1º - Com fundamento em transtorno em saúde mental, ninguém sofrerá
limitação em sua condição de cidadão e sujeito de direitos, internações de
qualquer natureza ou outras formas de privação de liberdade, sem o devido
processo legal nos temos do art. 5º, inc. LIV, da Constituição Federal.
Parágrafo único - A internação voluntária de maiores de idade em hospitais
psiquiátricos e estabelecimentos similares exigirá laudo médico que fundamente
o procedimento, bem como informações que assegurem ao internando formar
opinião, manifestar vontade e compreender a natureza de sua decisão.

Art. 2º - A reforma psiquiátrica consistirá na gradativa substituição do
sistema hospitalocêntrico de cuidados às pessoas que padecem de sofrimento
psíquico por uma rede integrada e variados serviços assistencias de atenção
sanitária e social, tais como ambulatórios, emergências psiquiátricas em
hospitais gerais, leitos ou unidades de internação psiquiátrica em hospitais
gerais, hospitais-dia, hospitais-noite, centros de convivência, centros
comunitários, centros de atenção psicossocial, centros residenciais de cuidados
intensivos, lares abrigados, pensões públicas comunitárias, oficinas de
atividades construtivas e similares.

Art. 3º - Fica vedada a construção e ampliação de hospitais psiquiátricos,
públicos ou privados, e a contratação e financiamento, pelo setor público, de
novos leitos nesses hospitais.
§ 1º - É Facultado aos hospitais psiquiátricos a progressiva instalação de
leitos em outras especialidades médicas na proporção mínima dos leitos
psiquiátricos que forem sendo extintos, possibilitando a transformação destas
estruturas em hospitais gerais.
§ 2º - No prazo de cinco anos, contados da publicação desta Lei, serão
reavaliados todos os hospitais psiquiátricos, visando a aferir a adequação dos
mesmos à reforma instituída, como requisito para a renovação da licença de
funcionamento, sem prejuízo das vistorias e procedimentos de rotina.

Art. 4º - Será permitida a construção de unidades psiquiátricas em hospitais
gerais, de acordo com as demandas loco-regionais, a partir de projeto a ser
avaliado e autorizado pelas Secretarias e Conselhos Municipais de Saúde,
seguido de parecer final da Secretaria e Conselho Estadual de Saúde.
§ 1º - Estas unidades psiquiátricas deverão contar com áreas e equipamentos de
serviços básicos comuns ao hospital geral, com estrutura física e pessoal
adequado ao tratamentos dos portadores de sofrimento psíquico, sendo que as
instalações referidas no "caput" não poderão ultrapassar a 10% (dez por cento)
da capacidade instalada, até o limite de 30 (trinta) leitos, por unidade
operacional.
§ 2º - Para os fins desta Lei, entender-se-á como unidade psiquiátrica aquela
instalada e integrada ao hospital geral que preste serviços no pleno acordo aos
princípios desta Lei, sem que, de qualquer modo, reproduzam efeitos próprios do
sistema hospitalocêntrico de atendimento em saúde mental.

Art. 5º - Quando da construção de hospitais gerais no Estado, será requisito
imprescindível a existência de serviço de atendimento para pacientes que
padeçam de sofrimento psíquico, guardadas as necessidades de leitos
psiquiátricos locais e/ou regionais.

Art. 6º - Às instituições privadas de saúde e assegurada a participação no
sistema estabelecido nesta Lei, nos termos do artigo 199 da Constituição
Federal.

Art. 7º - A reforma psiquiátrica, na sua operacionalidade
técnico-administrativa, abrangerá, necessariamente, na forma da lei federal, e
respeitadas as definições constitucionais referentes às competências, os níveis
estadual e municipal, devendo atender às peculiaridades regionais e locais,
observado o caráter articulado e integrado do Sistema Único de Saúde:
§ 1º - Os Conselhos Estadual e Municipais de Saúde, constituirão Comissões de
Reforma Psiquiátrica, com representação de trabalhadores em saúde mental,
autoridades sanitárias, prestadores e usuários dos serviços, familiares,
representantes da Ordem dos Advogados do Brasil e da comunidade científica, que
deverão propor, acompanhar e exigir das Secretarias Estadual e Municipais de
Saúde, o estabelecido nesta Lei.
§ 2º - As Secretarias Estadual e Municipais de Saúde disporão de um ano,
contados da publicação desta Lei, para apresentarem, respectivamente, aos
Conselhos Estadual e Municipais de Saúde o planejamento e cronograma de
implantação dos novos recursos técnicos de atendimento.

DA REDE DE ATENÇÃO INTEGRAL EM SAÚDE MENTAL

Art. 8º - Os recursos assistencias previstos no artigo 2º desta Lei serão
implantados mediante ação articulada dos vários níveis de Governo, de acordo
com critérios definidos pelo Sistema Único de Saúde - SUS -, sendo competência
dos Conselhos Estadual e Municipais de Saúde a fiscalização do processo de
substituição dos leitos psiquiátricos e o exame das condições estabelecidas
pelas Secretarias Estadual e Municipais de Saúde, para a superação do modelo
hospitalocêntrico.

Parágrafo único - Os Conselhos Estadual e Municipais de Saúde deverão exigir
critérios objetivos, respectivamente, das Secretarias Estadual e Municipais de
Saúde, para a reserva de leitos psiquiátricos indispensáveis nos hospitais
gerais, observados os princípios desta Lei.

Art. 9º - A implantação e manutenção da rede de atendimento integral em saúde
mental será descentralizada e municipalizada, observadas as particularidades
sócio-culturais locais e regionais, garantida a gestão social destes meios.

Parágrafo único - As prefeituras municipais providenciarão, em cooperação com o
representante do Ministério Público local, a formação de Conselhos Comunitários
de atenção aos que padecem de sofrimento psíquico, que terão por função
principal assistir, auxiliar e orientar às famílias, de modo a garantir a
integração social e familiar dos que foram internados.

DAS INTERNAÇÕES PSIQUIÁTRICAS COMPULSÓRIAS

Art. 10 - A internação psiquiátrica compulsória é aquela realizada sem o
expresso consentimento do paciente, em qualquer tipo de serviço de saúde, sendo
o médico o responsável por sua caracterizarão.
§ 1º - A internação psiquiátrica compulsória deverá ser comunicada pelo médico
que a procedeu, no prazo de vinte e quatro horas, à autoridade do Ministério
Público, e, quando houver, à autoridade de Defensoria Pública.
§ 2º - A autoridade do Ministério Público, ou, quando houver, da Defensoria
Pública, poderá constituir junta interdisciplinar composta por três membros,
sendo um profissional médico e os demais profissionais em saúde mental com
formação de nível superior, para fins da formação de seu juízo sobre a
necessidade e legalidade da internação.

Art. 11 - O Ministério Público realizará vistorias periódicas nos
estabelecimentos que mantenham leitos psiquiátricos, com a finalidade de
verificar a correta aplicação desta Lei.

DAS DISPOSIÇÕES FINAIS

Art. 12 - Aos pacientes asilares, assim entendidos aqueles que perderam o
vínculo com a sociedade familiar e que se encontram ao desamparo e dependendo
do Estado, para sua manutenção, este providenciará atenção integral, devendo,
sempre que possível, integrá-los à sociedade através de políticas comuns com a
comunidade de sua proveniência.

Art. 13 - A Secretaria Estadual da Saúde e do Meio Ambiente, para garantir a
execução dos fins desta Lei, poderá cassar licenciamentos, aplicar multas e
outras punições administrativas previstas na legislação em vigor, bem como
expedirá os atos administrativos necessários a sua regulamentação.

Art. 14 - Compete aos Conselhos Municipais de saúde, observadas as necessidades
regionais, e com a homologação do Conselho Estadual de Saúde, a definição do
ritmo de redução dos leitos em hospitais psiquiátricos.

Art. 15 - No prazo de cinco anos, contados da publicação desta Lei, a Reforma
Psiquiátrica será reavaliada quanto aos seus rumos e ritmo de implantação.

Art. 16 - Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Art. 17 - Revogam-se as disposições em contrário.

PALÁCIO PIRATINI, em Porto Alegre, 07 de agosto de 1992.




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